quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

escuridao
som estridente de alguem batendo e arranhando a porta
grito de mulher
som de isqueiro, uma vela é acesa. rosto de mulher em panico com candeeiro na mao

João, acorde. Acorde, João.

Ela diz esbaforida.
Um corpo se move na cama sob um cobertor, um homem estende o braço

João, acorde. Ela grita, estica a mão para toca-lo

Mas ele se vira violento para ela, encarando-a sem dizer nada

Voce ouviu? Voce não ouviu? Tem algo ou alguém la fora.

Ele a encara, servero, mas nao diz nada. olha-a impaciente e fixamente, mas nao faz nenhum movimento

Ela corre pra janela, tenta olhar pelas frestas, sempre apoiando-se na vela, sombras horriveis sao projetadas nas paredes. 

Ela se aproxima da porta. 

O homem volta a deitar, impaciente. Olha fixamente o teto

Voce não vai fazer nada, vai ficar aí parado, olhando pro teto. 

Ouve-se uma batida na janela, forte. Ela apavorada. O homem parado, olhando pro teto.
A janela treme, ameaça estourar. Ela corre e tenta apoiar as costas na janela. 

João, me ajude. 

Ele se levanta, senta-se impaciente na cama com braços cruzados. 

A mulher grita. Grita, as batidas intensas. Ela grita.

João se levanta, se aproxima apanha a vela. Sempre ignorando a presença da mulher. Com um cigarro acende um cigarro e fuma.

Voce vai ficar aí parado, seu desgraçado? inútil, inutil, inutil.

Ele da um tapa na cara dela. E tudo fica em silêncio. 
Ela recua para a porta, e fica de cabeça baixa, o cabelo cobrindo a cara

Por que você não cala a sua boca, sua vaca? 
Você não cansa de repetir isso toda a noite? Eu já entrei! A casa agora.
Voce está morta, morta.


Ela entao ergue a cabeça e começa a rir histericamente, histericamente olhando pra ela. E desaparece.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

LAURO
Se este filme começasse pelo fim, ele começaria com uma morte. Ou com um beijo. Melhor, viria primeiro o beijo, depois a morte. A morte e o beijo viriam juntos. Melhor: o beijo levaria a morte. A minha morte. O meu beijo. Mas o filme não começa assim. Começa com começam os filmes. No começo, só com a morte, sem beijo. A morte do meu avô.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Recebido do Gabriel

Segue a fórmula do sucesso para a produção de vídeo digital e divulgação na web:


"Frequentemente as pessoas me perguntam como eu gravo, filmo, criando aquelas cores, etc. É tudo muito simples, e aqui vai minha pequena receita. Eu filme principalmente com a Panasonic 171, em que eu uso um microfone "shotgun" (literalmente "tiro"). Eu gravo sons separadamente usando um gravador "4-track" (literalmente 4-faixas), no qual eu plugo de 1 a 4 transmissores padrão sem fio da Sennheiser, usando diferentes "laveliers" (niveladores?), Sanken ou Tram. Eu também uso um ou dois microfones ambientes se possível no "4-track" (quatro trilhas), um omni-direcional e um ultra direcional sendo a saída perfeita. Eu frequentemente acrescento a tudo isso um outro pequeno gravador isolado, o Zoom H2 sendo realmente barato e bom. Eu então faço todas as edições no Final Cut Pro, e até faço as correções de cor nele. Eu aconselharia usar Compressor para comprimir os vídeos então, e, claro, o maravilhoso site do Vimeo para hospedá-los na web." - Vincent M

http://vimeo.com/vincentmoon/videos

Frontal com fanta

Frontal com fanta

sábado, 16 de abril de 2011

Ouija



Gravado com Canos EOS 5D

quinta-feira, 10 de março de 2011

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Gravador de audio Zoom h2

 Gravador de Áudio Voz Digital Profissional Zoom H2, Qualidade Alta Definição 24-bit/96kHz, Gravação 360°, Eliminador de Ruídos, Entradas 3.5mm, (Grátis SD 4Gb)

Zoom h2




Zoom h4

Vídeo produzido pela Canon Rebel T2i


Gabriel me mandou esse vídeo que foi feito na câmera CANON REBEL T2i. Quero comprar pra fazer meus filmes com baixo custo, boa mobilidade e qualidade de imagem, a ser trabalhado num programa de edição básico que não exija máquinas pesadas demais. Quero fazer uns filmes/curtas/docuS básicos, e estou na crença de que agora vai. Este vídeo postado foi feito pela produtora Mondocao Films, com espírito colaborativo, eles já trazem informação sobre como o vídeo foi produzido:  [Férias de Santa Rita [DSLR old film look] Filme-experimento da nossa incrível viagem de fim de ano pra Santa Rita do Passa Quatro. Filmado em HDSLR, com uma Canon T2i(550D) + lente 50mm f1.8. Editado e colorizado pelo Sony Vegas Pro 10. Pra atingir essa textura, usei somente color corrector e técnicas de burning blend. ]






quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Testamento

"... e para Orlando deixo meu coração baleado", escreveu, Julinha, no bilhete suicida. 

Navalha

- Tá vendo como eu te amo?!
[E passou a navalha nos pêlos crespos do púbis]

Primeira impressão

Volumoso
Quadrado
Orelhas curtas
Cheio de frases longas
inteligentes.
Convencional,
mas com
algo poético:
amava suas negras palavras.

Não conseguia largá-lo
No parque
No quarto
Na cama
mudo, feito o criado à cabeceira
submetia-se
deixava-se abrir
entregue: um livro aberto.

Embora,
o fim se anunciasse
desde o começo,
deixava-se dedilhar
manipular
manusear

ele era seu bilíngüe amante
dando prazer
sobressaltos
gostos
desgostos

até o inevitavel desfecho
na página 348.

Bíblico

A palavra sagrada publicada 
versículo a versículo, 
e Deus resolveu calar-se para todo sempre. 
E nunca se citou, para não soar arrogante.

Orelha

A ausência sentida de uma orelha 
na biografia de Van Gogh

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

LISTEI TODOS OS POSTE QUE FIZ NO BLOG DAS 30

Abaixo, pus os 21 post que fiz no Blog das 30 Pessoas do qual saí hoje. Eu realmente me orgulho da maioria deles.

PASSA-SE ESSE PONTO

ou Recado para o novo ocupante
ou Mensagem de despedida para os companheiros dos 30
ou Bye-bye erótico-saudoso
ou último post do Edu Araújo



Passo esse ponto.  Arejado, cheio de ideias novas e alguns lugares-comuns. Costuma ser bem frequentado. Às vezes espiam e comentam, mas é coisa da vizinhança, e vizinho a gente não escolhe. De um modo geral ninguém se mete na vida de ninguem, e a maioria gosta bastante de visita. No começo, ainda que menos frequentado, sempre escreviam recados os que por aqui passavam, não sei por que perderam o hábito. E as pessoas, que ocupam este espaço, fingem que não, mas gostam que falem delas, das coisas delas. Tem muita gente carente nesse mundo. Vezenquando aparece fotos familiares. Uns choram nos seus quadradinhos. Põem música, videozinho. Mandam recado. De dor de dente à dor de amor. Cabe tudo. Conto de fada, continho pornográfico, mulher nua, poesia que ninguém entende, dialogos-piadas, tramas policiais, cartas, reportagem especial de automobilismo. Entre e fique à vontade! Pode puxar aquela banqueta, àquela, criatura, no pé da página.

Ocupam o espaço uns tipos neo-hippies super hypes, viajantes, jovenzinhos na maioria (Mas nem se diz, pelo bonito que escrevem!). Andam meio melancólicos ultimamente. Desconfio que mais da metade fuma maconha, o que não chega a incomodar. São discretos. Se tem intriga, resolvem via email, coisas de gente moderna. Mas no fundo, eu acho que é tudo gente de família, respeitadora e temente a Deus. Adeus, foi o que eu disse. 

E digo de novo, olhinhos marejados de água como clichê de novela da Globo: "Foi bom estar aqui". É um espaço agradável, de gente comprometida/descomprometida/metida. Uns dias e outros ficam lacunas no espaço. Acontece, como quem falta ao serviço. Mas será que pesa tanto assim uma vez por mês? 

O certo é que foi bom, enquanto durou. É duro partir, e parto. Fiz um monte de coisa boa aqui, que me orgulho. Botei na vitrine, por um tempo, o melhor de mim. Mas com os dias, alguma coisa se perde, se desgasta, a gente olha em volta, dá um desânimo, um vazio de rotina. Sabe papai e mamãe todo dia? A gente quer que algo aconteça, espetacular, e nada. E antes de acabar todo o gás, ser mera obrigação, compromisso, a gente bate a mão no tapetão e pede pra sair. Feito agora. Razão para deixar a vaga, e dizer, feito fim de relação: o problema não é você, sou eu, baby.

Ponto passado, com exigência ao novo ocupante: Vê se respeita o dia 13 que é quase dia santo, de tão bonito número, de sorte e azar. Hasard. E não maltrate o Português, porque se é pra transgredir, faça com alguma razão e domínio do jogo: ideias e palavras friccionando no espaço, para gerar surpresa, encantamento. Textos longos enfadam, mas dane-se, se confiar bote, que há sempre alguém neste mar à deriva pra se atracar nele. E fuja ao piloto automático, ao post gambiarra. Ok, meu último foi assim, mas é por que brochei. Tesão é coisa divina, todo gozo é gozo santo. E eu digo a você: só faça o que tiver que fazer "com prazer". Muito prazer, seja bem vindo! A casa é sua. Já pus a mudança no meu caminhão. Deixo essas coisinhas aí no espaço, se não tiver que fazer, dê aos pobres, pois o que não falta é pobre nesta vida. Não se assuste com o eco do espaço vazio. Dê uma demão de tinta na parede. Decore o ambiente com seu estilo, imprima aqui sua personalidade. Seja bem vindo. 


Puxa, quase dois anos aqui! 21 postagens (contando com esta), dá para acreditar?! Pus tudo aqui pra no caso de sentirem saudades. Juro que volto em visitas surpresa para ver se não escangalharam a casa, que isto aqui é zona de respeito, de prestígio, doce de coco. É ísso! E desculpe pelo alongado do adeus, é que a gente faz isso nas despedidas, mesmo sendo da nossa vontade. Mudar é foda, despedir pior. Então vou. Deixo endereço, para caso de contato e dúvida. E um clipezinho, que boto depois, é de um show que fui, para encher por inteiro o espaço da saudade. Saudades.


Amor.

Edu

Sobre deuses e monstros

Tem jeito? A gente manda nesse coração cachorro? A gente quer é se ferrar fazendo tudo errado. Tudo que não deve. E sabendo que a gente vai se ferrar depois (por que sei). O caminho melhor é aquele outro. Mas essa pá de cal fica na mão. A gente tem que velar o corpo do amor, entregar o cadáver a Deus, enterrar bem fundo, fazer missa de sétimo dia, chorar até esquecer. Mas lá vai a gente: psicografia, mensagem pro além, chico-xavear o amor defunto, evocá-lo, zumbizar pela cidade. Tem jeito? O cérebro devorado no final. E esse nó no peito. Quem entende? Por que a vida não pode ser simples assim, como era, antes de tudo desbaratar certezas?

Azul e branco




II



Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.

III



Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

               e cavalo-marinho. 

Vinícius de Moraes



[No Palácio Gustavo Capanema, o poema de Vinicius de Moraes materializado em azulejos de Portinári: azul e branco. Manhã de segunda-feira, Rio de Janeiro, e um dia de sol.]

[O Palácio Gustavo Capanema foi construído entre 1936 e 1945, por uma equipe liderada por Lucio Costa.
Nela, estavam os então jovens Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão e Oscar Niemeyer, entre outros. Os jardins foram desenhados por Burle Marx. Os azulejos da fachada, bem como os painéis do segundo andar, por Candido Portinari. Por tudo isso, o Capanema é considerado um dos principais edifícios do modernismo brasileiro, e seu prédio é tombado desde 1948.]


Investigação acerca (do crime) de Eduardo AT

Todas as janelas da casa dão para muros. Ele vive uma vida sem paisagem. 


Barrando a porta da sala de estar, uma mesa balcão com dois computadores. Empilhados: livros, revistas, dvds e cds, desordem de canetas, agendas. Fios entrecruzados à beira de um curto. Imaginam-se horas diante do escritório improvisado. Vida sem visitas. Caos no trabalho e nos dias. Utopia de alguém que insiste em ganhar a vida com escritos e filmes.

Estantes de metais encurvando livros. Burras de carga de um pretenso saber. Pouco mais que a metade com páginas anotadas a lápis, o que pressupõe que nem todas lidas.

Sobre a geladeira um boneco articulado em fuga. Adesivos em desordem. Lâmpada queimada na luminária dupla. Torneira estrangulada para não gotejar segredos martelando insônias na madrugada. Interruptores falhando em luz, impondo escuridão. [Na última gaveta da pia, interruptores e borrachinhas novas para o conserto que por preguiça, falta de tempo ou tédio não realiza.]

No guarda-roupa, calças tamanho 42 em harmonia com outras 48, assim como camisetas M com GG e XL (velhas e novas), o que pressupõe oscilação frequente de peso ou grave doença recente. O predomínio de camisetas pretas com gola V convivendo com outras, de cores diversas, nunca usadas. Luto ou equivocada forma de se fazer atraente. 

No cômoda, suplementos de academia em convivência com apostilas de cursinho. Anotações, rascunhos em papéis, planos de aula, lista de alunos, redações corrigidas, tudo denunciando a segunda profissão, que de mais antiga só perde para a das putas; mas sem igual prazer, igual reconhecimento e remuneração.

No criado mudo, a tristeza de contas por pagar e pequenos recibos com seu nome estampado em solidão, tudo reafirmando o fato de ser solteiro e estar por si.

Numa sacola, dúzias de preservativos tanto gritam dias de intensa promiscuidade ou de absoluta abstinência. Cuecas novíssimas, de marca cara dando indício de relacionamentos recentes, tudo a par de meias confortáveis da algodão, tênis diversos, bonitos, não-gastos, empilhados e que dizem, por isso, que ele precisa andar mais, viajar mais, buscar novos caminhos.

Na janela do banheiro, várias escovas de dente, pastas pela metade, pomadas para toda espécie de praga, alergias. Lâminas de barbear. Pinças. Cotonetes. O nonsense de pentes finos e xampu que  riem de sua cabeça raspada.

Na cozinha, o relógio que antecipa seus costumeiros atrasos, anuncia com seus ponteiros as 2:06 da noite, ao lado de um pinguim exilado que mira do alto a mesa onde pares de pratos comprovam um jantar noturno. O desleixo da mesa  e as panelas ainda quentes no fogão falam de uma noite compartilhada. Mas os cobertores e travesseiros em dois sofás distintos, voltados para tevê berram amizade (e não sexo) nesta noite fria de novembro.

Não há porta-retratos, imagens de santos na casa, poucos bibelôs (que desgosta), mas há um tarô no criado mudo cuspindo arcanos e destinos. Há também um baralho lacrado noutra gaveta, convivendo sem fé com uma bíblia, documentos postos em pastas e pequenos aparelhos eletrônicos, comprimidos para dores, gripe e azia. 

Agora pouco tocou o celular. São trinta e dois números listados na agenda. Seis ligam com frequência. Os torpedos mais recentes são de André, Cinha, Cristiane, Murilo, Matheus P e Lucas. Âncoras com mundo exterior que impedem que afunde em si? Trombetas que anunciam que a vida está lá fora, e se faz melhor nos encontros?

.
Por fim, esse espelho atrás da porta do quarto para ele se ver, para se saber, para se fotografar vezenquando. Espelho que é testemunha ocular do espetáculo monótono dos dias, e que não lhe questiona o certo/errado do viver. Assim, paremos neste espelho, que amplia a ilusão do quarto e de si, já que todos os mínimos indícios do dia  vão dar no sujeito frente à superfície: ele que é dele mesmo a (sua) mais frequente companhia. 


A noite em que cruzei com Caetano Veloso na Lapa


Descendo a Taylor pra acompanhar Jo, que ia ver Céu no Circo Voador, eu cruzei com o Caetano Veloso que vinha sorridente a pé ao lado de um garoto e uma moca muito linda de cabelos curtos. Achei-o bonito com seu sorriso rápido e tênis baixos, e a meia-noite e seu tanto ficou mais estelar. Eu até que quis ir atrás, dizer a ele muito devoto: Caetano, eu gosto você, você é o cara que me ensinou a ser mais livre.  E um tanto ridiculo, para constrangê-lo ou ve-lo rir, diria: Caetano, você é o meu Chico Buarque. Mas não fiz nada disso, eu já tinha vivido uns minutos antes minha porção de estrelas no apê daquela argentina.

*


Meu coração é vadio e eu tenho sede da sede sentado na ladeira onde quase ninguem passa e a luz amarela de postes antigos colabora para dar mais brilho ao noturno celestial deste Rio novo, antiquíssimo.  E eu sou mais feliz depois desse beijo noturno, predestinado em Santa Teresa com seus ateliês abertos. Beijo com trilha  e sem pudor ante a multidao que é samba, reggae e bossa.




*

Porque tudo é interessante demais o tempo todo.

*

[Eu me liguei quase agora do quanto tenho feito por mim. E o fator principal é essa minha entrega um tanto dionisiaca à vida, e ao encontro com pessoas. Queria postar sobre a importância de ter amigos, de revê-los, o prazer resgatado de estar com eles, de rir mais, beber mais, conversar longamente. O prazer de descobrir gente nova, outras amizades, olhos que me ensinam a olhar. E eu tenho uma sorte incrivel, pois nunca são encontros fúteis, ostentação e olhar blazé. É que eu tenho aquela sorte (que me invejam) para gente.  Essa mania cristã de querer só o bem para quem me quer tão bem. E voo.


Sexta-feira, treze


E de repente chegou o dia treze e o terror confirmado de não ter pensando num texto para pôr aqui. Então pego, ligo a webcam e você está offline. Mando mensagem dizendo que estou aqui, pois ando com esperança, e você responde, minutos depois que chegou agora e vê aquele filme, que talvez eu tenha visto, aquele cujo título me escapa, já que nos embaraçamos em longas conversas. Digo do texto que não fiz. Você me sugere o horror das sextas-feiras 13. Eu digo que já escrevi sobre isso e você indaga, por que não uma continuação? Tenho a idéia de treze fotos colhidas por webcam, você acha ótimo, e escolhe o dia três e faz aquela careta incrível, com três dedos erguidos. Copio e colo essa tela. Peço online a amigos fotos que não me dão. Você me repreende, então tem tudo isso de gente aí nesse seu msn? Nosso sentimento de exclusividade vai de repente ficando mais evidente. Você me relata cantadas e eu as minhas e baladas e convites e já estamos conversando, sobretudo, sobre nós. É tarde. O texto não veio. E começa a esfriar. Fala da minha saúde, da rotina dos dias, do passeio que teve junto ao mar. E falamos do que temos. Domingo agora é dia de te ver, de vermos filmes, de andarmos um pouco juntos. Reclamo que me devora o tempo e que o texto não sai pois só falamos um ao outro como se não houvesse essa distância, curta, mas ainda assim distância. E já é quase noite. Já me despedi três vezes, você me avisa e continua dizendo que vigia meus silêncios nesses frames lentos da webcam. Esqueço de ir tomar o café. Rimos. Rimos sempre.

Um conto meu principia com a frase: "O primeiro sintoma da loucura é a alegria".

Definitivamente não, não tenho nada para escrever sobre os horrores da sexta-feira-treze. Estou indo em breve para o Rio. Tudo é incerto sob o sol. Há esse Jason com a faca em riste. Mas eu só quero saber de você e da Angelina Jolie pendurada no ar como uma aranha. O que me interessa é só você e o possível sol do domingo, 15, que faremos existir, se não houver.



Finalmente um post feliz








a ligação. a surpresa. a expectativa. o tímido lance. a deambulação. os cliques para direita. o lugar privilegiado. o espetáculo. o minimalismo da apresentação. o labirinto da Sé e seus perigos a cada esquina. a impossível entrada do metrô. a Paulista à noite, quando tudo é possível. a longa conversa no bonito restaurante, até ser irremediavelmente tarde. o beijo com a coca-cola de fundo. os pés que doem na longa caminhada (pharmakoi: veneno, remédio, futebol). a descida ao augusto inferno das contradições. e tudo mais que são no mínimo o máximo. o calor no meio do frio. o chuvisco do chuveiro. a porta aberta em luz. esse enlaçar complicado, que é o reconhecimento de campo do desejo. (eu roubei isso de um poema de Safo) a conversa muito honesta de que não somos quem somos. o sucesso no fracasso. e o dormir enlaçado quando é manhã e a paisagem sem janela não nos avisa que a vida já iniciou outro tempo. acompanhar no café rápido da despedida. e na janela do veículo que te leva, eu viro a cabeça. é um adeus silencioso, à lispector. mas eu te levo comigo, por enquanto, no metrô e no trem que chacoalham famintos para a casa. querendo só o teu bem. o maior bem do mundo para nós.

[Hoje o post era para ser triste, tristíssimo, mas então eu me lembrei disso que escrevi e não te mandei nunca, e que já é passado, mas eu faço presente este presente, carente de futuro. onde houver o MAR.]


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[PLAY]

O verde-amarelo da minha rua


A rua da infância se vestiu de Brasil para esperar o futebol. Há bandeirolas de uma ponta à outra, bandeiras em tubos plásticos, cal auriverde nas calçadas. Há meninos que desfilam camisas de times, e tudo nos saúda o movimento bonito do bairro familiar. A gente atravessa a rua sabendo que somos distintos, pois não há outra rua Helena como a nossa, a minha. 


Na infância de fogueira em junho, de pipoca e quentão. A mobilização, a caça de bambu longe. Um dia eu fui. Chegavam os homens, os velhos e moços na rua, trançavam entre postes a festa junina. O Zico, o bar, suas filhas, meu pai, o entusiasmo de mim, tão tímido, e das crianças. 


Eu quero esse verde-amarelo das periferias na minha alma de triste. Eu quero entregar tudo ao não-sentido da paixão de um movimento de campo. Eu que não sei jogar, nem dançar, pois nasci com os pés muito cavados, pernas confusas e nenhum jogo de cintura. Eu nunca soube idolatrar esses rapazes de chuteira fora do tempo da Copa. Ainda assim, eu quero pertencer a tudo isso, ao movimento pró-Brasil da minha rua, a essa coisa meio ingênua de bairro que nunca perdi, pois sou, sempre serei isso e todas as outras coisas estando aqui ou fora. 


Com ou sem Copa, eu não quero nunca me perder de mim. Troco talheres, corro para pegar o ônibus que lá vai, acho da maior dignidade o catador de papel, bebo média no tiozinho da esquina. Há muito eu me fiz digno demais para falsear a vida, fazer demasiado gênero para parecer bonito. Gosto da verdade ingênua espelhada no verde-amarelo das calçadas, o naif da vida sem neon ou ópio. E para os que acham esse clima de Copa ou futebol mera alienação, eu sou pela inconsciência, o transe feliz não ponderado, o samba-exaltação. Eu ando mesmo é desejoso do gol.

Cumpleaños

5 dos 30



O "uM"

A aniversariante "DoIS", com seu irmão "DeZOito"


O "SeIS"


O "TReZe"
(Iluminado, ou "antes do apagão") 


Todos os outros números fora dos 30


O bolo


[Caríssimos, hoje nossa companheira de blog Letícia faz aniversário e não posso faltar. Aproveito para rever amigos neste importante evento, prometendo postar neste espaço (hoje, se possível) as fotos da moça e de outros membros  dos 30, para mostrar que existimos para além do virtual. Portanto, hoje teremos um post foto-jornalistico, um documento dessa estranha fauna paulistana com registros raros desse monumental encontro  recheado de comentários lúcidos, ácidos e/ou etílicos. Até.]


E o fim.

VIAGEM


Voltando para casa, às cinco da manhã, manhã, manhanzinha, parei a leitura do livro para filmar a paisagem da janela e as pessoas dormindo no trem que sacudia para Mauá. Pus também música que ouvia no fone de ouvido do mp3 na câmera e filmei a página do conto lindo que estava relendo, Frontal com Fanta. Tudo que edito, com leitura em voz alta, para agora postar lá, no Blog das 30 pessoas.

[CARÍSSIMOS, PERDI O DIA 13 POIS MEU COMPUTADOR ESTÁ COM DATA ERRADA, E EU SOU A DISTRAÇÃO EM PESSOA. MAS PREPARO O VÍDEO, POSTO AMANHÃ, SE TUDO DER CERTO. SEI QUE É FORA DA DATA, MAS É O QUE POSSO FAZER. ABRAÇO.]

Dia treze postei aqui

No blog das 30 pessoas:


[A gafe já foi cometida, como é 13 e o espaço é meu, fica. Outra razão são os comentários, como apagá-los? Fica tudo. E justifico: queimando com uma febre de 40 graus, como se o inferno estivesse dentro de mim. Três injeções depois e, só agora, à noitinha, vejo o fora. O fora fica. Tudo é a vida, com seus tantos erros e acertos. Beijos a todos.] 

Do amor ou Para os que nunca dizem eu te amo

Sei que o amor exige palavras fáceis, para soar sincero, como velhos boleros, guarânias, calipsos e baladas. Não sou desses. Não rimo flor com amor, coração com paixão, nem me empenho demais, também, em rimas ricas. Escrevo o amor com a palavra sargaço, intuindo um azul que pode ser mar e céu e viração de seu olhar. Digo, apolíneo, como quem alinha o sol tendo à vista a extensão da sombra. Contorno o amor sem brusquidão, roço-o, não toco, sem desespero. Meu amor não "desfalece", ele tomba, precipitado na palavra abissal. Porque o meu amor exige sempre o melhor de mim, que a minha língua adivinhe o melaço, bagaço de cana, mel e melissa. Que a palavra escrita exprima exímia, sua delícia. Falar de amor sem paixão? Sem a ilusão da eternidade? Amor sem coronárias, pontes de safenas que não vão dar na aorta?

Mais que palavra, o meu amor é carne, e amo mais o gosto deste encontro de corpos, do não-silêncio dos lábios em busca, as artimanhas das mãos mudas, o braille cheio de manha em curvas, a virtuose dos instrumentos que dedilham finos mamilos salientes. Meu amor é todo dança, música e alguma luta desesperada. É brega, franco-atirador de setas, coração partido, bobo de paixão, coitado; e mundo-cão.

E eu queria tanto trocar o “sabe" que eu te amo pelo “eu te amo” sem sabedoria, na mesma entrega desses náufragos que só vêem pela frente o mar.

Como se fosse treze de fato, no sábado primeiro de Carnaval



Do Recife: calango entre calçadas das Graças. Discussões. Com Conrado sobre os poetas anêmicos, bastardinhos diluidores de Elliot e Emily Dickinson, palavras esdrúxulas que gosto mas que despencam. Esse gosto compartilado: "Fim de feira, periferia afora/a cidade não mora mais em mim/Francisco, Serafim, vamos embora." Com Lucas, as excessivas, cotidianas. Almoços fartos caríssimos entre arrecifes erguidos em conversas entre Cabaré e as Torres, ao lado de Brasília Teimosa. Recife antigo, beija-se demais na Rua da Moeda. As canções em looping de frevo e todas as cores infinitamente reiteradas  combinam. Aqui e ali, o mau gosto de turistas polacos lambuzados com protetor tal molho rosê. E me deliciam as imitações de Conrado no carro. Nem sempre Lili toca flauta. Enquanto isso na sala de justiça. E eu acho é pouco. Cerveja latão por inimagináveis dois reais. Comi ovos de codorna sem excitação. Neste domingo, a perspectiva de Céu ou Lenine. Vi Cleyton desmontado de Wally, e foi bom. Agora quero o sol bonito de Porto sobre insanas camadas de filtro solar, na casa de Sônia onde os aviões passam zunindo a beira dos prédio, à beira mar de Boa Viagem.

What does gaúcha mean?





Aline liga. A linha ocupada. Do outro lado sóbrio, engravatado, no gabinete bauhaus, agita-se ante o laptop, o fluxo de dados. A rede ameaça prender desvios bancários. Contramão, cowboys de cuecas, gráficos e bolsa nos leds competindo com xanas, rachas, crash, xoxotas. Vida expostas à mira, a um click, clips, clitóris. Encontrara  Aline, gata tri-sexy three weeks ago. Gaúcha? Dedilha, plugado Michaelis. A gravata, a barba, aparados. Os pêlos pubianos: aparato exato. Quer tc comigo? A ex, o cartão, o amante, a criança, o blue eye da loiraça pura safada, peitinhos durinhos (que ele fuma desatento ao censor, a vigilância online). Tudo aqui e lá, jogaria no ar para viver o sonho tropical à brasileira? Ela navegando em um apê barato, expondo-se a downloads, a uploads, streamings estremecendo o já balançado coração por torpedinhos que ele manda de New York. O cenário modelo, o fundo falso do book, empina peitinhos num perpétuo movimento do desejo que não quer calar. Ela escuta no iphone - da Federal Express direto para a Freguesia do Ó - "You break my heart" e "No ordinary love" baladas velhas que denunciam a idade do Romeo. Não se falam, reféns de mensagens vertidas pelo eletrônico de inglês tradutor. BraZil. I love brazilian girls. I love chicas from Ipanema. Yo sé hablar Spanglish. Vc qr tc comigo? Do you...? O dia radiante de quarta as estréias da semana buzinas na avenida, placas 1 e 2 de Sampa (não de Porto Alegre) bloqueadas amarelinhos com seus bloquinhos 28 graus à sombra do Empire State Building, do World Trade Center. Yo sé hablar Spanglish. De repente, o vidro espalhando o seu azul colossal. Diga de libra o signo, o zodíaco, o mapa do dia. What does gaucha mean? O primeiro avião penetra a Torre. 9.11. Aline, gata gaúcha ouve um clique, depois não ouve nada. Seu futuro americano partido em dez mil estilhaços.


Sessão sofá

Ele nunca tinha ido ao cinema, mas tinha visto muitos filmes em preto e branco na tevê. Tudo girava em botões, sem vestígios de controles-remotos. O gato da casa gostava de dormir ronronando no calor do teto da tevê de válvula, edifícios iluminados dentro da caixa de madeira. Na tela, o mar vermelho se abria deixando passar os fiéis do deserto, com o faraó correndo em bigas, para naufragar quando Moisés descesse seu cajado a mando do Senhor. O cinema, para ele, era o sagrado: Jesus suspenso na cruz ressuscitando ao terceiro dia; Sansão tosado derrubando colunas; Lúcia, Jacinta e Francisco ante o fulgor da virgem de Fátima. O cinema era seu evangelho. As mil possibilidades nas chagas abertas do Cristo, muito antes de 2001, de A guerra do fogo, a metafísica de Solaris. O cinema era sua descida ao inferno. Rezava, herege, para que a professora morresse para não perder a reprise de Fúria de titãs; Simbad, o marujo, Jasão e o velocino de ouro e o tosco vôo de Aladin. Os mesmos filmes exaustivamente repetidos na Sessão da tarde, vistos como se da primeira vez.






13 comentários:


Eduardo Araújo disse...
No mundo cinza o Telefunken, passaram O pássaro azul, As sete faces do Dr. Lao, A maravilhosa fábrica de chocolate, Doroty, em O mágico de Oz. Só ganharam cores anos mais tarde, com o western espaguete do Sérgio Leoni recortado para caber no pífio retângulo do Philco Hitachi. O cinema era o futuro: o vôo do ET com a lua de fundo, os sabres de luz de Luke Skywalker, de Tlön, de A mosca, o futuro ameaçado de O exterminador, destroçado de Mad Max, o passado bárbaro de Conan.
Eduardo Araújo disse...
O cinema mal visto na tevê era toda sua fantasia, sua fuga, seu desvio. Não havia livros ainda. As histórias reinventadas à alta madrugada. A bolha de plástico que aprisionava Travolta, as lágrimas derramadas com o menino de O campeão. Não conhecia o inferno de O exorcista, o paraíso erótico de Lagoa azul, mas já invejava infinitamente a irmã mais velha e primas que foram ao Cymaflor assistir a Dio como te amo.
Eduardo Araújo disse...
Os filmes, naquele tempo, eram menos que p&b: cinza pálido, luz pontilhada por chuviscos, soluços de som da caixa de pandora (22 pol.) que alargava a paisagem da janela, bloqueada por morros, ruas de lama, nenhuma possibilidade de futuro. Ele nunca tinha ido ao cinema, e o cinema revelava que tudo pode ser mais. A educação sentimental aprendida com A garota rosa-shocking, Gatinhas e Gatões, Clube dos cinco, Curtindo a vida adoidado, Porks.
Eduardo Araújo disse...
Ainda não havia visto Alien e A mosca, o segundo e terceiro filme que assistiu no cinema. Muito antes desses, assistiu de madrugada E o vento levou, e passou a adorar tudo que se chamasse clássico. Odiava os palavrões nos vulgares filmes nacionais. Mas, excitado, queria ver indecentes pornochanchadas no Sala Especial, que mal cumpriam a esperança de um peitinho. Os filmes na tevê ainda não eram para ele o que seria depois o Cinema. Era uma transgressão, olhos que ficariam arruinados para sempre. Sua semi-cegueira feliz, sua miopia tardiamente diagnosticada.
Eduardo Araújo disse...
Os filmes aperfeiçoavam a vida comezinha, os dias iguais, tristes, impiedosos. Idolatrava as vilãs dos filmes B´s americanos, terror sem sangue, melodramas contundentes, duras histórias de tribunal. Testemunha de Acusação, na madrugada.
Eduardo Araújo disse...
A dama do lotação, Os sete gatinhos, Perdoa-me por me traíres, Bonitinha, mas ordinária, - o Brasil era então um incompreensível - emaranhado de taras, pentelhos, mulheres nuas e negros. Longe dali havia o inferno de Pixote, de Lúcio Flávio, Vera. Jamais se lembraria de ter ido ao cinema com o pai ou a mãe. O mundo terrível de Cristiane F não era para ele, pois ele queria a alegria dos finais felizes. Algo como o rosto inesquecível de Michele Pfeifer em Áquila, os tiros abatendo Glen Close para sempre na banheira, a moeda de Ghost suspensa no ar.
Eduardo Araújo disse...
Só no futuro, receberia os amigos em casa sessão em vhs de Laranja Mecânica, A última tentação de Cristo, O poderoso chefão.[Kieslowski, Almodóvar, Bergman, Fellini, Buñuel e Hitchcock chegariam só mais tarde, misturando-se sem conflito a todos os dramas, prazeres, soluçoes da vida]. Porque o cinema seria sempre a outra vida. A tela aberta feito ampla vela cinemascope, muito clara no escuro, para caber tudo. O cinema não mais passado ou futuro. Para fazer-se mais visível. Presente. Para evidenciar a vida. Sua brevidade. Seu fulgor. Luminoso, ilustrando, alucinando, iluminando-o.